Perseverance

Perseverance

Valdecir Pascoal

 

O robô “Perseverance”, da Nasa, pousou em Marte no mês passado, após viajar 480 milhões de quilômetros.  Por dois anos, ele buscará sinais de vida no Planeta Vermelho. No paraquedas alvirrubro que o conduziu à cratera Jazero, onde um dia houve um rio, está escrito em código binário: “Dare might things” (Ouse coisas grandiosas).

Refletindo sobre o notável feito e, ao mesmo tempo, vivendo a tragédia humanitária global trazida pela pandemia, somada a outras históricas mazelas terrenas, imaginei o encontro do Extramarciano (E.M.) “Perseverance” com um aterrorizado Marciano de poucas amizades.

Desabafou o Marciano:

— Vocês, terráqueos, por aqui de novo? Não veem que deveriam primeiro resolver seus graves problemas? Olhe ao redor e veja o estrago que deixaram aqui da última vez. Nesta cratera, há muitos anos, corria um caudaloso rio margeado por florestas. Marcianos e natureza vivíamos em perfeita harmonia, como na canção “Ebony and Ivory” (McCartney & Wonder). Hoje somos um planeta asfixiado por 95% de Dióxido de Carbono (CO2) e tudo aqui é deserto e solidão. Pelo visto, vocês não aprenderam nada com o poema–alerta “O Homem: as Viagens”, de Drummond. Ousar coisas supostamente grandiosas, esquecendo do verdadeiro engenho humano – viajar para dentro de si mesmo e aprender a conviver –, torna-se pura megalomania. Veja o que acontece na Terra nesta nova pandemia. Não bastassem os dramas já passados e os estudos científicos, Bill Gates, já em 2015, advertia para a potencial catástrofe viral. A imprevidência, porém, é a marca de vocês. É estarrecedor o que se passa no Brasil, onde uma variante de humanos resiste aos fatos, à ciência e às noções básicas de bom senso e solidariedade. Vivem um verdadeiro delírio tropical narcisista. Encurtam destinos, qual o Gato da “Pequena Fábula”, de Kafka. A mensagem que recebi de Elis Regina continua atual: “Alô alô marciano / Aqui quem fala é da terra / Pra variar estamos em guerra / Você não imagina a loucura”. Lembrei também do meu amigo que mora ali no B-612, o Pequeno Príncipe, quando diz que vocês não costumam ser responsáveis pelo que cativam e, amiúde, desprezam o essencial, o que não é visível aos olhos. Imploro que volte à Terra e grite aos seus para que não repitam os erros cometidos aqui, que aprendam com a nova pandemia e não ignorem os alertas da ciência sobre o meio ambiente e os graves riscos do aquecimento global. Clame pela leitura do novíssimo livro de Bill Gates: “Como evitar um desastre climático”. Ele já provou que sabe das coisas. Volte, pois seu lugar é lá na Terra, PERSEVERANÇA.

Valdecir Pascoal – Conselheiro do TCE-PE

 

 

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