Itacuruba tecendo o amanhã

Itacuruba tecendo o amanhã

Valdecir Pascoal

As águas de março já corriam naquele marcante ano de 1988. No Planalto do Cerrado, o debate constituinte seguia intenso e a passos largos. Após 20 anos de ditadura, uma constituição democrática seria aprovada em outubro, alçando a educação ao patamar de direito social fundamental do cidadão e dever do Estado. Consciente do descaso histórico do nosso país com a educação, a Constituição Federal garantiu uma vinculação mínima dos impostos para sustentá-la. Águas que anunciavam promessas de vida.

Na mesma época, em 6 de março, na planície da pequena Itacuruba, sertão do médio São Francisco pernambucano, a população (4.600 habitantes, sendo 54% de origem indígena e quilombola), movida por tristeza, saudade, choro e ansiedade, despedia-se da velha cidade de terra fértil, rodeada de ilhas e cachoeiras. Carregando a imagem de Nossa Senhora do Ó em procissão (légua tirana, marcha estradeira), os moradores seguiam com destino ao que viria ser um verdadeiro exílio: a nova sede construída na caatinga, por força das obras da hidrelétrica de Itaparica. O dilúvio que formou o grande lago e inundou o chão-raiz estava longe de significar promessas de vida para aqueles corações angustiados.

Para saber a dimensão da mudança geográfica na psique daquela gente humilde, recomendo a leitura da tese de doutorado da antropóloga pernambucana Maria do Socorro Fonseca Vieira Figueiredo, que chegou a morar na cidade durante seis meses (1). Com a maestria de uma escafandrista à procura de almas, relíquias, sentidos e sonhos, esse trabalho acadêmico, permeado de ciência, literatura, empatia e lirismo, é um mergulho profundo na saga-trauma daquele povo sofrido, que, tendo deixado para trás a memória e a identidade, parecia seguir na contramão de Canaã. O tema também é explorado nos filmes “De Profundis”, de Isabela Cribari, que trata especificamente do “Caso Itacuruba” (2), e “Narradores de Javé”, de Eliane Caffé (3).

Pois bem. O tempo passou e, três décadas depois, o destino reservava um encontro entre as águas da melancolia e as águas da esperança. No último dia 10 deste dezembro, a Escola Estadual do ensino médio Professora Maria de Menezes Guimarães, que funciona em tempo integral, em Itacuruba, ganhou o importante Prêmio Nacional de Gestão Escolar 2020, por sua performance durante a pandemia. Ante a proibição de aulas presenciais, gestores e professores da escola desdobraram-se para assegurar o uso de plataformas digitais, redes sociais e rádios locais, bem como a entrega de tarefas escolares na casa de alunos sem acesso à internet, tudo isso com o envolvimento direto das famílias dos alunos e da comunidade. Iniciativas e atitudes que lhe garantiram o galardão, dentre as quase oito mil escolas do país inscritas ao prêmio (4).

Em meio ao tenebroso inverno trazido pela Covid-19, em tempos obscuros, distópicos, carentes de paz nos desaventos, é preciso gritar bem alto, e para o mundo, as boas novas: é primavera em Itacuruba! A chegada dessa arca do saber, fruto civilizatório da nossa Constituição, construída a partir de políticas públicas contínuas e efetivas, prenuncia uma espécie de novo e sagrado Monte Ararat para seus cidadãos. As pedras que formam o seu nome – do Tupi-Guarani: Ita (pedra); curuba (miúda, cascuda) – estão sendo usadas para edificar castelos de futuro. Chão e pedras de giz indicam que não era o fim do caminho; que há, enfim, promessas de vida.

A despeito dos desafios históricos, exemplos edificantes na educação pública surgem em Pernambuco e em muitos Estados e Municípios. É preciso, contudo, torná-los um padrão nacional, desafio para o novo Fundeb. Que a luz das lanternas dos pedagogos, inspirada nos galos solidários do poeta João Cabral de Melo Neto (5), espalhe-se Brasil afora, a cada nascer do sol, tecendo um novo amanhã.

Um 2021 de saúde, educação e paz.

 

VALDECIR PASCOAL – Conselheiro do TCE-PE. Diretor da Escola de Contas Públicas Professor Barreto Guimarães (do TCE-PE). Foi presidente da Atricon (2014/2017).

 

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  1. Leia aqui https://bit.ly/3qSidRH a tese “Exílio: Pertencimentos e reconhecimentos em populações deslocadas – O caso Itacuruba”. Maria do Socorro Fonseca Vieira Figueiredo. UFPE, 2011.

 

  1. Veja o filme “De Profundis” em:  https://youtu.be/3fZnyW1KcRc.

 

  1. Veja o filme “Narradores de Javé” em: https://youtu.be/Trm-CyihYs8.

 

  1. a) Ver o relato da experiência da Escola Referência do Ensino Médio Estadual Professora Maria de Menezes Guimarães em: https://bit.ly/3oU4p7zEREM de Itacuruba: pequenina do sertão, que faz da educação sua missão.
  1. b) Assista à cerimônia de premiação em: https://youtu.be/wzw6rt3FBbc.

 

  1. Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:

ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a outro; de um outro galo

que apanhe o grito que um galo antes

e o lance a outro; e de outros galos

que com muitos outros galos se cruzem

os fios de sol de seus gritos de galo,

para que a manhã, desde uma teia tênue,

se vá tecendo, entre todos os galos.

[…]

(João Cabral de Melo Neto, Publicado no livro “A educação pela pedra”,1966)

 

 

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