De uma serendipidade à Revolta da Covid19

De uma serendipidade à Revolta da Covid19

Inaldo da Paixão Santos Araújo

Mestre em Contabilidade. Conselheiro-corregedor do Tribunal de Contas do Estado. Professor Universitário. Escritor.

inaldo_paixao@hotmail.com

Embora os dicionários Aurélio e da Academia Brasileira de Letras não a reconheçam, o “Novíssimo Aulete – dicionário contemporâneo da língua portuguesa”, publicado pela Lexikon Editora, que acabo de comprar, define a palavra serendipidade como “1. Descoberta feliz ou proveitosa, feita por acaso, muitas vezes quando se buscavam outras coisas, outros resultados; 2. Circunstância favorável, capacidade ou tendência a fazer descobertas importantes ou felizes por acaso”.

Informa ainda, o meu novo dicionário, que serendipidade deriva da palavra inglesa serendipity, “cunhada pelo escritor Horace Walpole em 1754, inspirado no conto de fadas persa intitulado em inglês The three princes of Serendip”.

A primeira vez que li o termo serendipidade foi por uma serendipidade. De fato, foi por acaso que comecei a ler o livro “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves. Indicado por uma pessoa muito querida, por muito relutei a encarar as suas 952 páginas.

Ao concluí-lo, quantas descobertas afortunadas decorrentes do acaso foram reveladas na epopeia vivida e relatada por Kehinde, de Savalu, no Reino do Daomé, atual Benin. Ao fugir de brigas tribais e perseguições religiosas, ela, sua irmã gêmea Taiwo e sua avó chegam à cidade de Uidá. Ali são capturadas por mercadores de escravos e enviadas para a Bahia.

Pedindo vênia aos meus leitores, mas para descrever esse livro, uso integralmente a sinopse disponível no site da editora Record que o lançou: “Fascinante história de uma africana idosa, cega e à beira da morte, que viaja da África para o Brasil em busca do filho perdido há décadas. Ao longo da travessia, ela vai contando sua vida, marcada por mortes, estupros, violência e escravidão. Inserido em um contexto histórico importante na formação do povo brasileiro e narrado de uma maneira original e pungente, na qual os fatos históricos estão imersos no cotidiano e na vida dos personagens”.

O romance “Um defeito de cor” é um relato das nossas raízes que precisa ser lido com mente aberta para todas as suas possibilidades e descobertas. Ele, há muito, já deveria ter virado série nesses canais de streaming. Assim penso.

Entre tantas passagens históricas que o livro rememora, chamou-me a atenção a “Cemiterada”, alcunha de uma revolta popular que teve origem nas irmandades e ordens religiosas de Salvador, ocorrida na capital baiana em 25 de outubro de 1836.

Naqueles tempos, era tradição enterrar os mortos nas igrejas ou nas suas cercanias. Ação que aproximava os falecidos dos céus e era extremamente lucrativa para a igreja. Mas, como a ciência estava a comprovar, era necessário higienizar a cidade, pois os “miasmas mefíticos” produzidos pela decomposição cadavérica atacavam a saúde e eram extremamente prejudiciais aos vivos, pois contribuíam para a sua mortandade.

Com a aprovação da Lei do Cemitério, de 1835, a inumação dos mortos foi transferida das igrejas para o novo cemitério Campo Santo. Essa praça dos mortos seria operada por uma companhia privada que teria o monopólio dos enterros por 30 anos. Quem sabe um dos primeiros casos de parceria público-privada no Brasil?

Incentivados pelas irmandades religiosas, e com base em uma mentalidade mesquinha, anticientífica e inescrupulosa, uma multidão boiada-conservadora, ignorante e supersticiosa destruiu o recém-inaugurado cemitério do Campo Santo, em Salvador, colocando fogo naquilo que podia arder.

Assim, em 1855, quando a diarreia aquosa e profusa, com ou sem vômitos, dor abdominal e cãibras decorrentes da propagação das bactérias vibrio cholerae contribuíram para aproximar mais rapidamente os homens do paraíso, a retirada dos mortos do interior das igrejas passou a se constituir medida de saúde pública.

Realmente vale a pena ler o papel de Kehinde nessa manifestação da irracionalidade humana e fazer uma analogia com a realidade atual, em tempos de pandemia, de invasões de hospitais e de “carteiradas” que se configuram como uma verdadeira revolta da Covid-19. Com certeza, caro leitor, você também encontrará as suas serendipidades. Afinal, como disse Louis Pasteur, “o acaso só favorece a mente preparada.”

 

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