Cegueira e lucidez

Cegueira e lucidez

* Valdecir Pascoal

A recente crise-catarse decorrente da paralisação dos caminhoneiros fez-nos lembrar de dois clássicos de Saramago: os Ensaios sobre a cegueira (1995) e sobre a lucidez (2004).

O primeiro revela um dos aspectos mais nefastos da essência humana. Uma sociedade que entra em colapso por causa da cegueira branca que atinge a sua população, gerando, em meio ao caos da falta de tudo, os piores instintos humanos, sobressaindo o egoísmo. O segundo ensaio é um brado contra as mazelas da representação política e sobre a necessidade de melhorar a democracia. A alegoria dessa vez são os votos em branco. A maioria esmagadora da população comparece às urnas, mas vota em branco, num desconcertante recado de rejeição ao establishment.

No Brasil, uma das cegueiras da hora, avessa à lucidez, é a defesa, sem cerimônia, de uma nova ditadura. Mesmo representando o desejo de uma minoria, trata-se de uma grave demonstração de retrocesso civilizatório, uma espécie de amnésia (in)consciente da história e suas feridas, fruto da nossa imaturidade, da falta de educação e cultura democrática e, em parte, de um sentimento de indignação-vingança.

Buscando uma visão lúcida do processo histórico do país, é forçoso enxergar relevantes avanços institucionais, a exemplo da redemocratização, do aprimoramento das leis, do fortalecimento institucional do controle, da transparência e do combate à corrupção, da maior participação cidadã e da liberdade de imprensa, sem olvidar a própria postura responsável dos atuais comandantes das forças armadas.

A causa democrática, todavia, é perene e exige resiliência para o enfrentamento das necessárias reformas do porvir: a política, a do Estado, as que diminuam as desigualdades sociais, especialmente por meio de uma revolução educacional, e aquelas que promovam uma sociedade mais ética. Não haverá futuro digno sem democracia, cujo aprimoramento demanda tempo e persistência. É também um processo dialético, em que, amiúde, os caminhos certos são entrecortados por encruzilhadas, passos perdidos e outros em falso. É “caminhadura”.

Enquanto não chegamos a esse novo patamar, que continuemos firmes, criticando, votando com responsabilidade, sem nos esquecermos, contudo, da civilidade e fugindo dos juízos ligeiros, das intolerâncias, dos personalismos e das narrativas de conveniência em que o inferno costuma ser o outro. Mirar a altivez e a ternura solidária do “Cão das lágrimas”, personagem emblemático dos ensaios de Saramago, é um caminho certo.

* É Conselheiro do TCE-PE e Professor de Direito Financeiro

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