A bodega da professora Francy

Numa sala de aula da escola José da Matta e Silva, em Sobral, interior cearense, ao final da aula as crianças fazem fila em frente à bodega da professora Francy (assim chamada por ela). Com créditos conquistados a partir do bom desempenho, ali podem “adquirir” objetos escolares, biscoitos e outros itens expostos em uma mesa cuidadosamente organizada. A troca é uma forma de premiar o desempenho e de colocar em prática lições de educação fiscal e sobre o valor da moeda.

Para chegar lá é preciso percorrer cerca de 230 quilômetros desde Fortaleza. A paisagem é árida e o Município fica longe do litoral. Mesmo assim, Sobral se tornou famoso por ter a melhor rede de ensino público do Brasil, onde os alunos apresentam bons resultados desde a alfabetização. Apenas alguns exemplos: primeira posição no Ideb nos anos finais do ensino fundamental em 2017; os índices obtidos na avaliação de leitura de uma das escolas superam os do Reino Unido e da França; a distorção idade/série, a evasão e o abandono foram praticamente zerados.

Quem chega às escolas municipais, que abrigam 35 mil alunos, encontra um cenário diferente da maioria dos colégios públicos brasileiros: alunos acolhidos, prédios conservados, estudantes uniformizados e com mochilas completas, bibliotecas e laboratórios equipados. Uma dessas salas é a da professora Francy. Lá se aprende matemática cantando músicas criadas por ela sobre multiplicação, divisão e porcentagem.

Mas, para ensinar é preciso se preparar. Por isso, a mestra Francy e todos os professores da rede passam mensalmente pela Escola de Formação Permanente. Salários dignos e boas condições de trabalho são itens dessa receita onde a valorização do professor e a qualificação do gestor são pontos centrais.  Com tantos resultados positivos, fica claro que se deve sair da retórica da escassez e buscar soluções. Se ainda precisamos de mais dinheiro, a melhoria na gestão é também urgente. Podemos  aprender a copiar e a replicar o que já vem dando certo, inclusive no nosso Estado. Esse é o caminho.

 * Cezar Miola, conselheiro do TCE-RS e presidente do Comitê de Educação do Instituto Rui Barbosa.

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